Bem cedinho pela manhã,
daquele dia 19 de Fevereiro de 2026, com a pontualidade que é apanágio dos
alunos da Uniseti, quando se trata de passeio, partimos rumo ao Algarve, em
visita de estudo sob a égide da disciplina de Portugal no Mundo – A Natureza e
o Homem, que a Professora Ana Paula Cebola rege com entusiasmo e saber.
A expectativa era grande,
pois um dos objectivos, talvez o mais excitante, era visitar a mina de sal-gema
de Loulé, coisa que nenhum dos presentes nunca antes fizera.
A explicação da origem
desta formação geológica abordada nas aulas, continuou durante o percurso.
Primeira paragem técnica
em Almodôvar, a que o saudoso professor Alberto Alves chamaria “smiling stop”.
Tomado o cafezinho da manhã, o segundo para alguns, que o cedo erguer a isso
levou. E de novo na estrada a caminho de Portimão.
Mais uma vez tivemos a
sorte de ter como guia-acompanhante o já nosso conhecido Daniel, manancial de
informação histórica, sempre com a lição bem estudada, que animou todo o
percurso: falou das Misericórdias, do Cristianismo, do amor ao próximo, da
riqueza de Loulé; resumiu a vida de D. Henrique de Menezes, primeiro Conde de
Loulé; referiu D. João de Lencastre, fundador do Conventinho da Arrábida e do
seu rocambolesco casamento com D. Guiomar Coutinho.
Chegados a Portimão
encaminhámo-nos para o Museu de Portimão, com forte pendor para as actividades
ligadas ao mar: pesca, conservas de peixe e indústria naval. Junto ao cais o
curioso sistema de descarga do pescado: um carrossel de cestos suspensos que
transportava o peixe dos barcos para terra.
Visto o museu, seguiu-se
um agradável almoço no restaurante do Hotel Júpiter. Findo o almoço metemo-nos
a caminho de Loulé. Antes desta cidade um desvio extraprograma: visita à capela
e santuário de Nossa Senhora da Piedade. Capela oitocentista e santuário
modernaço, inaugurado pelo Cardeal D. Manuel Cerejeira, em 1961, como consta na
placa comemorativa do evento.
Pelo meio da tarde
chegámos à mina, tendo-se de imediato constituído dois grupos por questões
praticas e de segurança. Depois a distribuição de capacetes: verdes para um
grupo e azuis para o outro. Seguiu-se a entrega de lanternas adaptáveis aos
capacetes e de coletes de identificação, de cor laranja com duas faixas fluorescentes.
Ficou tudo muito bonito e contente.
Ordeiramente
encaminhámo-nos para o poço da mina, entrámos na jaula em grupos de cinco mais
o acompanhante e, bem apertadinhos, descemos a 230 m de profundidade. Houve
quem sugerisse que em vez de jaula se utilizasse a expressão, mais suave, de
gaiola, que também se usa nestas circunstâncias. Parece que foi atendida a
pretensão, pois não se voltou a falar em jaula.
No interior da mina
tem-se uma surpreendente sensação de espaço dada a grandiosidade das galerias
por onde circulam camiões! Como o sal que conhecemos é branco, de um modo geral
pensávamos que encontraríamos um ambiente claro, mas não, tudo é escuro e o sal-gema
mesmo cristalizado é escuro. A luz das lanternas dos capacetes ajuda a
iluminação fixa da mina e faz ressaltar a presença das estalagtites de sal que
pendem dos tectos.
Máquinas enormes para
extração e transporte do sal causam admiração e levantam a questão de como
teriam chegado ali. A explicação foi dada pelo guia: as máquinas são
desmontadas peça a peça introduzidas no interior pelo poço e remontadas nas
galerias. Quando deixam de servir são abandonadas no interior da mina. Veem-se
várias máquinas abandonadas completamente enferrujadas.
A mina, nos seus 45 km de
túneis serpenteia sob as habitações extraindo o sal desse depósito evaporítico
(assim nos ensinou a Professora Ana Paula) que, com seus mais de setecentos
metros de profundidade é praticamente inesgotável. Mas a exploração da mina tem
vindo a decair dado o baixo preço do sal e a sua abundância mais perto dos
locais de consumo, usado, nomeadamente, para deitar nas estradas e evitar a
formação de gelo nos locais onde neva muito.
Como o mundo da arte
procura os locais mais insólitos para as suas apresentações, também esta mina
serviu, segundo nos disse o guia, para a realização de concertos, para
exposições de obras de arte, como ainda se pode observar no local, e para
suporte de manifestações da arte escultórica.
Finda a visita rumo a
Tavira e ao hotel Vila Galé para jantar e dormida.
O segundo dia da visita
começa pelo museu do atum instalado no Hotel Vila Galé Albacora, em Tavira,
junto ao rio Gilão. Este hotel e todo o complexo turístico à sua volta ocupa o
antigo arraial Ferreira Neto que durante anos foi utilizado por famílias dos
pescadores da armação (almadrava) durante as campanhas da pesca do atum.
O pequeno museu apresenta
numa vitrine uma almadrava, em miniatura, alguns apetrechos da pesca e passa um
vídeo da faina. Mas o espaço exterior, verdadeiramente interessante, faz-nos
transportar ao tempo das grandes pescarias e imaginar o local fervilhando de
vida e actividade. A nova utilização deste espaço, levou à transformação das casas
dos pescadores em alojamentos turísticos, mas a escola e a capela ainda se
mantêm no seu posto.
Etapa concluída, seguimos
para Faro para visita ao Centro de Ciência Viva do Algarve. Um excelente guia,
com formação científica própria, deu uma lição de biologia marinha e do
funcionamento de alguns dos seus ecossistemas.
Chegada a hora, um bom
almoço nos aguardava no restaurante do Hotel EVA, com vista para a marina de
Faro e música de fundo de piano a solo.
Retemperadas as forças, seguiu-se um passeio
de barco pela Ria Formosa, como vem nos catálogos, mas, como nos ensinou a
Professora Ana Paula, não se trata de uma Ria, mas sim de um Lido, que se formou por deposição marinha e
as ilhas assim formadas têm o feito de barreira, protegendo os ecossistemas aí
existentes e a própria área litoral,mas sendo Lido que não deixa, por
isso, de ser formoso.
Navegámos até à ilha da Culatra, desembarcámos
na Praia do Farol e a seguir fomos até à aldeia a que esta ilha deu o nome. De
regresso, tempo para um pé de dança a bordo ao som de acordéon e para ver o
pôr-do-sol a partir do mar.
O programa do último dia incluía a observação
das amendoeiras em flor. Amendoeiras havia muitas, mas já sem flor.
Breve paragem em Mértola e seguimos para
Aljustrel. Logo a seguir a Mértola, a estrada corta uma colina, vendo-se na
trincheira estratos de xisto argiloso, motivo para mais uma intervenção da
Professora Ana Paula. Entretanto o guia Daniel foi dando largas aos seus
conhecimentos de história sobre Mértola, dos homiziados nesta terra, da Ordem
de Santiago, e por aí adiante.
Almoço no restaurante Fio de Azeite, nosso
conhecido de outras andanças.
Almoçados, seguimos para
o Parque Mineiro de Aljustrel. À chegada salta à vista a imponência do
malacate, maquinismo para descida ao interior da mina, mas esta não foi
possível devido a aluimentos provocados pelo mau tempo das semanas anteriores. A
explicação da guia foi muito interessante, tendo feito passar uma animação em
vídeo dos trabalhos na mina no tempo dos Romanos naquela terra então chamada
Vipasca. Esta actividade estava devidamente regulamentada, chegando até nós o
registo em placas de bronze, as Tábuas de Vipasca. Como curiosidade referiu o
chamado Azul de Aljustrel, pequenas faixas de azul esverdeado incrustadas no
filão, composto por vários minerais com predominância do sulfato de cobre,
utilizado como pigmento para as tintas de pintores. Continuando, esclareceu que
o que se extraía da mina não era pirite, mas sim calcopirite, que é minério de
cobre e daí o interesse dos romanos na exploração desta mina, dada a
importância deste metal na vida desse povo naqueles tempos. No percurso
exterior fomos até à central de compressores onde foi dada explicação do antigo
uso do ar comprimido nos trabalhos de perfuração nas galerias, coisa que hoje
se faz por outros processos.
Finda a visita, não
deixámos o local sem cantar o Hino dos Mineiros, como homenagem a todos aqueles
que no interior da terra procuraram com trabalho árduo e penoso o seu sustento
e de suas famílias. E, para terminar, a foto do grupo para mais tarde recordar.
No regresso a casa
surpresa das surpresas: um pouco antes de Almodôvar um extensíssimo amendoal em
flor. A quem Deus promete…
Santuário de Nossa Senhora da Piedade
Loulé : Mina de Sal-gema
Antigo Arraial Ferreira Neto - Tavira
Setúbal, 25 de Fevereiro
de 2026
Texto e fotos: J. Sanchez
Antunes













































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