28/02/2026

Visita de estudo ao Algarve

 



Bem cedinho pela manhã, daquele dia 19 de Fevereiro de 2026, com a pontualidade que é apanágio dos alunos da Uniseti, quando se trata de passeio, partimos rumo ao Algarve, em visita de estudo sob a égide da disciplina de Portugal no Mundo – A Natureza e o Homem, que a Professora Ana Paula Cebola rege com entusiasmo e saber.

A expectativa era grande, pois um dos objectivos, talvez o mais excitante, era visitar a mina de sal-gema de Loulé, coisa que nenhum dos presentes nunca antes fizera.

A explicação da origem desta formação geológica abordada nas aulas, continuou durante o percurso.

Primeira paragem técnica em Almodôvar, a que o saudoso professor Alberto Alves chamaria “smiling stop”. Tomado o cafezinho da manhã, o segundo para alguns, que o cedo erguer a isso levou. E de novo na estrada a caminho de Portimão.

Mais uma vez tivemos a sorte de ter como guia-acompanhante o já nosso conhecido Daniel, manancial de informação histórica, sempre com a lição bem estudada, que animou todo o percurso: falou das Misericórdias, do Cristianismo, do amor ao próximo, da riqueza de Loulé; resumiu a vida de D. Henrique de Menezes, primeiro Conde de Loulé; referiu D. João de Lencastre, fundador do Conventinho da Arrábida e do seu rocambolesco casamento com D. Guiomar Coutinho.

Chegados a Portimão encaminhámo-nos para o Museu de Portimão, com forte pendor para as actividades ligadas ao mar: pesca, conservas de peixe e indústria naval. Junto ao cais o curioso sistema de descarga do pescado: um carrossel de cestos suspensos que transportava o peixe dos barcos para terra.

Visto o museu, seguiu-se um agradável almoço no restaurante do Hotel Júpiter. Findo o almoço metemo-nos a caminho de Loulé. Antes desta cidade um desvio extraprograma: visita à capela e santuário de Nossa Senhora da Piedade. Capela oitocentista e santuário modernaço, inaugurado pelo Cardeal D. Manuel Cerejeira, em 1961, como consta na placa comemorativa do evento.

Pelo meio da tarde chegámos à mina, tendo-se de imediato constituído dois grupos por questões praticas e de segurança. Depois a distribuição de capacetes: verdes para um grupo e azuis para o outro. Seguiu-se a entrega de lanternas adaptáveis aos capacetes e de coletes de identificação, de cor laranja com duas faixas fluorescentes. Ficou tudo muito bonito e contente.

Ordeiramente encaminhámo-nos para o poço da mina, entrámos na jaula em grupos de cinco mais o acompanhante e, bem apertadinhos, descemos a 230 m de profundidade. Houve quem sugerisse que em vez de jaula se utilizasse a expressão, mais suave, de gaiola, que também se usa nestas circunstâncias. Parece que foi atendida a pretensão, pois não se voltou a falar em jaula.

No interior da mina tem-se uma surpreendente sensação de espaço dada a grandiosidade das galerias por onde circulam camiões! Como o sal que conhecemos é branco, de um modo geral pensávamos que encontraríamos um ambiente claro, mas não, tudo é escuro e o sal-gema mesmo cristalizado é escuro. A luz das lanternas dos capacetes ajuda a iluminação fixa da mina e faz ressaltar a presença das estalagtites de sal que pendem dos tectos.

Máquinas enormes para extração e transporte do sal causam admiração e levantam a questão de como teriam chegado ali. A explicação foi dada pelo guia: as máquinas são desmontadas peça a peça introduzidas no interior pelo poço e remontadas nas galerias. Quando deixam de servir são abandonadas no interior da mina. Veem-se várias máquinas abandonadas completamente enferrujadas.

A mina, nos seus 45 km de túneis serpenteia sob as habitações extraindo o sal desse depósito evaporítico (assim nos ensinou a Professora Ana Paula) que, com seus mais de setecentos metros de profundidade é praticamente inesgotável. Mas a exploração da mina tem vindo a decair dado o baixo preço do sal e a sua abundância mais perto dos locais de consumo, usado, nomeadamente, para deitar nas estradas e evitar a formação de gelo nos locais onde neva muito.

Como o mundo da arte procura os locais mais insólitos para as suas apresentações, também esta mina serviu, segundo nos disse o guia, para a realização de concertos, para exposições de obras de arte, como ainda se pode observar no local, e para suporte de manifestações da arte escultórica.

Finda a visita rumo a Tavira e ao hotel Vila Galé para jantar e dormida.

O segundo dia da visita começa pelo museu do atum instalado no Hotel Vila Galé Albacora, em Tavira, junto ao rio Gilão. Este hotel e todo o complexo turístico à sua volta ocupa o antigo arraial Ferreira Neto que durante anos foi utilizado por famílias dos pescadores da armação (almadrava) durante as campanhas da pesca do atum.

O pequeno museu apresenta numa vitrine uma almadrava, em miniatura, alguns apetrechos da pesca e passa um vídeo da faina. Mas o espaço exterior, verdadeiramente interessante, faz-nos transportar ao tempo das grandes pescarias e imaginar o local fervilhando de vida e actividade. A nova utilização deste espaço, levou à transformação das casas dos pescadores em alojamentos turísticos, mas a escola e a capela ainda se mantêm no seu posto.  

Etapa concluída, seguimos para Faro para visita ao Centro de Ciência Viva do Algarve. Um excelente guia, com formação científica própria, deu uma lição de biologia marinha e do funcionamento de alguns dos seus ecossistemas.

Chegada a hora, um bom almoço nos aguardava no restaurante do Hotel EVA, com vista para a marina de Faro e música de fundo de piano a solo.

Retemperadas as forças, seguiu-se um passeio de barco pela Ria Formosa, como vem nos catálogos, mas, como nos ensinou a Professora Ana Paula, não se trata de uma Ria, mas sim de um Lido, que se formou por deposição marinha e as ilhas assim formadas têm o feito de barreira, protegendo os ecossistemas aí existentes e a própria área litoral,mas sendo Lido que não deixa, por isso, de ser formoso.

Navegámos até à ilha da Culatra, desembarcámos na Praia do Farol e a seguir fomos até à aldeia a que esta ilha deu o nome. De regresso, tempo para um pé de dança a bordo ao som de acordéon e para ver o pôr-do-sol a partir do mar.

O programa do último dia incluía a observação das amendoeiras em flor. Amendoeiras havia muitas, mas já sem flor.

Breve paragem em Mértola e seguimos para Aljustrel. Logo a seguir a Mértola, a estrada corta uma colina, vendo-se na trincheira estratos de xisto argiloso, motivo para mais uma intervenção da Professora Ana Paula. Entretanto o guia Daniel foi dando largas aos seus conhecimentos de história sobre Mértola, dos homiziados nesta terra, da Ordem de Santiago, e por aí adiante.

Almoço no restaurante Fio de Azeite, nosso conhecido de outras andanças.

Almoçados, seguimos para o Parque Mineiro de Aljustrel. À chegada salta à vista a imponência do malacate, maquinismo para descida ao interior da mina, mas esta não foi possível devido a aluimentos provocados pelo mau tempo das semanas anteriores. A explicação da guia foi muito interessante, tendo feito passar uma animação em vídeo dos trabalhos na mina no tempo dos Romanos naquela terra então chamada Vipasca. Esta actividade estava devidamente regulamentada, chegando até nós o registo em placas de bronze, as Tábuas de Vipasca. Como curiosidade referiu o chamado Azul de Aljustrel, pequenas faixas de azul esverdeado incrustadas no filão, composto por vários minerais com predominância do sulfato de cobre, utilizado como pigmento para as tintas de pintores. Continuando, esclareceu que o que se extraía da mina não era pirite, mas sim calcopirite, que é minério de cobre e daí o interesse dos romanos na exploração desta mina, dada a importância deste metal na vida desse povo naqueles tempos. No percurso exterior fomos até à central de compressores onde foi dada explicação do antigo uso do ar comprimido nos trabalhos de perfuração nas galerias, coisa que hoje se faz por outros processos.

Finda a visita, não deixámos o local sem cantar o Hino dos Mineiros, como homenagem a todos aqueles que no interior da terra procuraram com trabalho árduo e penoso o seu sustento e de suas famílias. E, para terminar, a foto do grupo para mais tarde recordar.

No regresso a casa surpresa das surpresas: um pouco antes de Almodôvar um extensíssimo amendoal em flor. A quem Deus promete…

 

Portimão














Santuário de Nossa Senhora da Piedade






Loulé : Mina de Sal-gema




















Antigo Arraial Ferreira Neto - Tavira











Faro







Ria (Lido) Formosa 












 Uma das tábuas de Vipasca






Central de compressores





Para terminar, Hino dos Mineiros de Aljustrel





Está tudo? Vamos andando.
Foto do grupo publicada na página do Facebook do Parque Mineiro de Aljustrel






Setúbal, 25 de Fevereiro de 2026

Texto e fotos: J. Sanchez Antunes

 


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