04/12/2022

"dias entreabertos" - comentários de JRR

 

Transcrição dos artigos do Dr. João Reis Ribeiro sobre o livro "dias entreabertos", publicados no jornal O Setubalense , edições dos dias 2 e 16 de Novembro de 2022.



A perplexidade, 

a angustia,

a incompreensão

pelo desconhecido

que nos amputa 

tudo aquilo que

faz com que a vida mereça ser 

vivida


Arlindo Mota



Diário dos dias da pandemia (1)

O estado de emergência, por razões de saúde pública ligadas à pandemia, foi decretado em Portugal em 18 de Março de 2020. Situação inusitada, abalou as formas de estar, de viver, de partilhar. No dia seguinte, Arlindo Mota trocava mensagem com os frequentadores da Universidade Sénior de Setúbal retransmitindo uma ideia de Maria Alice Silva: “Estes dias, em que temos de reinventar ocupações, para encher as horas que teimam em ficar presas no relógio do tempo, dão lugar a muita reflexão e descoberta… Estes textos poderiam depois ser lidos e reflectidos nas aulas futuras.”

O desafio foi aceite por duas dezenas de voluntários e começaram os registos diarísticos de pequenos acontecimentos, de quotidianos simples, de olhares através da janela, de medição do mundo e da vida numa escala que era desconhecida. Dessa produção nasceu o livro “Dias Entreabertos – Diário Breve dos Primeiros Meses da Pandemia”, editado pela UNISETI (2022), reunindo 24 autores, incluindo a poeta brasileira Vânia Lopez (que, do outro lado do Atlântico, quis colaborar no projecto) e a cientista Maria de Sousa (1939-2020), imunologista ceifada pela pandemia, de quem são transcritos três poemas, um deles escrito dez dias antes de falecer.

O tempo de escrita decorre entre 19 de Março e 27 de Julho (correspondendo ao tempo que faltava para finalizar o ano lectivo da UNISETI), sendo o mês de Abril o mais frequentado, com mais de quatro dezenas de participações.

Entrar por estes “dias entreabertos” possibilita uma série de lembranças das pequenas descobertas e aprendizagens, dos aspectos de um dia-a-dia a construir fora da normalidade, que enternecem pelo que avivam relativamente àquele tempo. Um exemplo: o açambarcamento de papel higiénico que sucedeu nos supermercados, tratado num texto repleto de ironia por Arlindo Mota, mais parecendo estar-se numa contemplação do fantástico.

Perante um viver fora do que era a normalidade, os diaristas vão reconstruindo os seus universos e partilhando essas novas combinações – Ana Maria B. entende, logo em 19 de Março, que “estes tempos difíceis são de facto uma prova a todos nós”, retirando uma conclusão: “Se não aproveitarmos isto para um ‘acordar’ e uma mudança de mentalidade e paradigma, se não aprendermos a perceber o que é realmente importante, então todo este esforço, sacrifício e vidas perdidas não servirá para nada.” Entretanto, o ciclo da Natureza não se alterava e, segmentada pela tristeza, Malice Silva dava, no dia seguinte, conta da chegada, “enrolada na chuva, escondida numa máscara que lhe cobria o rosto”, da Primavera. Com o afectar das relações de convivência diária graças ao isolamento, os canais de comunicação alteram-se também e uma volta pelo parque, bem cedinho, permite a Maria do Carmo Branco, num percurso quase solitário, aproximar-se da casa de algumas amigas, “falando elas da janela e eu da rua”.

A invenção de formas alternativas para as rotinas leva Malice Silva a duas descobertas repletas de simplicidade: a primeira, os passeios na varanda – “na minha varanda da frente, posso dar 40 passos, vinte em cada direcção, e outros tantos na varanda das traseiras, o que, somado, dá 80 passos em cada ‘caminhada’. Não é mau!”; a segunda, a atenção da vizinhança – “descobri, nas janelas dos prédios em redor, vizinhos que nunca tinha visto.” Nestas rotinas, emerge também o tempo para os pequenos prazeres, como sucede com José Manuel Fernandes, ao pensar sair para um passeio no jardim e uma passagem pelo café para comer um pastel de nata: “De repente, voltei à realidade: estamos em quarentena. Regressei a casa e aproveitei para ler um livro. Agora tenho tempo de sobra para ler…”


Diário dos dias da pandemia (2)

Ao longo dos textos de “Dias Entreabertos – Diário Breve dos Primeiros Meses da Pandemia”, as recomendações encontraram também espaço, haja em vista os apelos aos leitores para que “fiquem em casa”, eco dos avisos vindos das estruturas da saúde pública e do medo sentido no vazio das ruas. No entanto, as saídas estritamente necessárias  (por exemplo, para ir passear os animais de companhia) foram hipótese que logo serviu para alegrar os caninos, em passeatas contínuas, como sucedeu com “Kiko”, o cão visto a ser passeado por uma senhora e, passados vinte minutos, a ser acompanhado por um jovem, sequência que causou estranheza a Maria do Carmo Branco: “O rapaz, a sorrir, explicou que, como só havia um cão no prédio onde morava, todos os condóminos vinham passear o cão com autorização da dona”. …história que merece nota irónica: “um negócio a ponderar!”.

A imaginação tinha de encontrar alternativas para este “desembrulhar dos dias” (João Santiago) enquanto a televisão debitava o “boletim do dia da DGS” e a “evolução da curva” para demonstrar a progressão pandémica, numa inversão informativa, como Fátima Frazão Lopes enuncia em 28 de Março:  ”Em casa acordamos com o Coronavirus, tomamos as refeições com o Coronavirus, somos bombardeados até à exaustão com as mortes provocadas pelo Coronavirus em Portugal, na Europa e no resto do mundo. (…) O Coronavirus “infectou” as televisões, as rádios, os jornais, as revistas e as conferências de imprensa”. Desse mesmo dia é o registo de Fernanda Resende, marcada pelo retiro obrigatório e pela busca de uma nova forma de relação com o mundo: “aqui estou em prisão domiciliária, a cumprir a pena que me foi imposta “isolamento social”. (…) Procuro reinventar o tempo em conversas com o meu interior.” E conclui: Hoje não se vive, aprende-se a viver.”  

Esta reinvenção passa por cenários gizados por novas coordenadas: “a magia de um brinde com taças de champanhe erguidas do outro lado da cidade”, sobre um aniversário celebrado à distância, ou o reparar na roupa também “em quarentena de utilização” ou nos “sapatos que esqueceram o jeito de andar” (Malice Silva); o cumprir tarefas desde há muito adiadas, como “pensar, escrever, repousar com serenidade, meditar e conviver com a comunidade de familiares” e “aceder à prática do maravilhoso culto da imaginação”(João Santiago); a procura da proximidade para combater o frio do afastamento através daquele “engenho tecnológico que o homem criou para aproximar as pessoas”, permitindo o contacto com os familiares mais directos, sobretudo “aqueles ramos maravilhosos que de nós partiram”, vencendo-se a irrealidade daqueles dias (Sanchez Antunes, o mais assíduo frequentador desta antologia).

Alguns poemas perpassam também por estes “Dias Entreabertos”, com destaque para aqueles que surgem em nome de uma memória – Resendes Ventura (1936-2013)e Maria de Sousa (1939-2020), trazidos por Fátima Ribeiro de Medeiros, o primeiro a propósito da energia da palavra, partilhado no Dia Mundial da Língua Portuguesa (7 de Maio), a segunda com um poema produzido quatro dias antes de saber que estava infectada pelo vírus que a vitimaria passados dez dias (13 de Abril), testemunho forte de humanidade: “Mas antes de morrer / Quero que saibam / O quanto gosto de vocês / O quanto me preocupo convosco / O quanto recordo os momentos / partilhados e / queridos / (…) / Porque posso morrer e vós tereis de viver / Na vossa vida a esperança da minha duração.”

A última intervenção é de Arlindo Mota, em mensagem para Ana Bela Aleluia, uma quase justificação para este conglomerado de textos, registando “a perplexidade, a angústia, a incompreensão pelo desconhecido que nos amputa tudo aquilo que faz com que a vida mereça ser vivida”. Momentos intensos de emotividade, surgidos na oportunidade de um diário partilhado, conferindo à literatura o testemunho das dores dos tempos.   




03/12/2022

Comunicado oficial da Administração

 



28 AD/2022

 

Setúbal, 22 de novembro de 2022

 

 

COMUNICADO OFICIAL DA ADMINISTRAÇÃO

 

A UNIVERSIDADE E O AROMA DO TEMPO

 

Caras e Caros Professores, Alunos e Colaboradores

 

A UNISETI – Universidade Sénior de Setúbal retoma progressivamente a sua actividade normal. Sem alaridos, resolvendo as "feridas" causadas pela pandemia – que continua entre nós… - tanto nos aspectos organizacionais como financeiros, e preparando um futuro melhor, com mais condições e novos projectos. Já lá iremos, mas apesar da proximidade da sua ocorrência, umas semanas medeiam ainda antes da sua divulgação plena. Hoje, limitar-nos-emos ao presente mais próximo.

Já no dia 2 de Dezembro, pelas 15 horas, haverá a tradicional sessão do CINE MAIOR IDADE, no cinema Charlot, com o magnífico filme “Três Cartazes à Beira da Estrada”.  Duas horas de bom cinema!

Perguntam-nos pela Festa de Natal… Sim vai haver, no dia 15 de Dezembro, pelas 12h30, no restaurante “O QUINTAL”, na Av. Portela. Os serviços administrativos aceitam as inscrições cuja ementa e preço é de 18 euros (inclui o sorteio de um Cabaz de Natal!). E entre 5 e 7 de Dezembro ocorre o já tradicional Mercadinho do Natal onde podem participar todos os alunos e professores que produzam artesanato e doçaria caseira. Inscrevam-se.

Para dia 16 de Dezembro – e haverá melhor maneira de encerrar o período lectivo?... – conseguimos marcação para uma das mais surpreendentes exposições de 2022/2023, na Fundação Gulbenkian, designada FARAÓS SUPERSTARS (a inaugurar no próximo dia 25 de Novembro), onde serão apresentadas cerca de 250 peças provenientes de importantes coleções europeias, entre as quais do Museu Britânico, Museu do Louvre, do Museo Egizio (Turim), do Ashmolean Museum (Oxford), do Musée d’Orsay (Paris), do Mucem – Musée des Civilisations de l’Europe et de la Méditerranée (Marselha) ou da Biblioteca Nacional de Portugal (Lisboa), no contexto das comemorações do centenário da descoberta do túmulo de Tutankhamon por Howard Carter e do bicentenário da decifração dos hieróglifos pelo egiptólogo Jean-François Champollion. A não perder! (Os lugares são limitados, condicionados por ser uma (rara) Visita Guiada e pelos lugares do autocarro. Inscreva-se enquanto é tempo: 15 euros, inclui transporte e visita orientada.)

Perguntareis: É tudo? Não, não é tudo. Mas é, como diria o poeta, um pouco do aroma do tempo que desliza em plena luz do dia e nos ajuda a viver.

 

Com amizade,

O Presidente do Conselho de Administração

 

  

 

 Arlindo Mota

Celebração do XIX aniversário da Uniseti: Fotos


Setúbal, 4 de Novembro de 2022, no Auditório Charlot

Vera Lucas, a nossa apresentadora.

O grupo de cantares

O numeroso público



































O Senhor Presidente da Junta da UFS, discursando




















O Senhor Secretário da Junta de Freguesia de S. Sebastião, homenageia a Uniseti


                                                          

A professora Etelvina Bigas, a docente com mais anos da Uniseti, com a Sra Vice-presidente da CMS e o Presidente do CA da Uniseti





























O Cante alentejano


















Os galardoados com o Diploma Uniseti Fidelitas




































A Senhora Vice-presidente da CMS atribui trofeu à Uniseti























Entrega do Titulo de Professor Emérito à viúva do professor Quaresma Rosa 




















Testemunho da aluna Maria Arminda Santos




Cantou-se o fado








































E o bolo para celebrar





14/11/2022

CineMaioridade: Três cartazes à beira da estrada

 

CONVITE

Uma sessão rigorosamente a não perder. Entrada gratuita.

UNISETI – CINE MAIOR IDADE, 2 DE DEZEMBRO 2022

Coordenação: Arlindo Mota e Maria Alice Silva




07/11/2022

XIX Aniversário da UNISETI - Abertura das comemorações pelo Senhor Presidente do C. A. da UNISETI

 


XIX ANIVERSÁRIO, 4 de Novembro de 2022

 

Exma Senhora Vice-Presidente da Câmara, Drª Carla Guerreiro

Exmo Senhor Presidente da União das Freguesias de Setúbal, Sr. Rui Canas

Exmo Senhor  Membro do Executivo da Junta de Freguesia de São Sebastião, Sr. Luís de Matos

ESTIMADOS PROFESSORES, ALUNOS E COLABORADORES

Comemoramos hoje o XIX ano da criação da UNISETI num momento em  que ainda vivemos rodeados por um inimigo obscuro que nos tolhe as opções disponíveis e que determina, sem avisar,  que o definitivo se converta em provisório.

Mas começamos a viver o presente e este,  cogitava o filósofo é, em certa medida, solidão, pois não colhe, nem o reconhecimento do passado, nem vive o frémito e a esperança do futuro. Mas é nele que vivemos e que temos de afeiçoar para que a nossa vida mereça a pena ser vivida, de bem connosco e com os outros que fazem parte do todo, onde se integra a comunidade UNISETI.

Estes dois últimos anos tiveram consequências que só o futuro se encarregará de determinar: pessoais, de bem-estar, institucionais. Por isso é com júbilo acrescido  nos reunimos aqui todos, neste magnífico auditório gentilmente cedido pela nossa autarquia, para comemorar quase duas dezenas de anos de vida da nossa Universidade Sénior.

Teremos oportunidade para verificar que o corpo das disciplinas ministradas equivalem ao que o ano lectivo 2019/2020 nos oferecia e algumas estão em lista de espera, aguardando que as ampliações no Parque do Bonfim estejam concluídas,

Por outro lado, a dinâmica extra-escolar que era uma característica do período pre-pandémico, está de volta: em Setembro e em Outubro já viajámos até Lisboa, para assistir ao espetáculo virtual e imersivo no Reservatório  Mãe d’ Água das Amoreiras, recomeçámos com a sala praticamente cheia o nosso cine-clube CINE MAIOR IDADE e efectuámos a primeira viajem internacional deste ano lectivo: a Ávila, Segovia e Madrid, com agrado geral.

Hoje o palco vai, naturalmente, para os nossos artistas: o Grupo de Fado, o Grupo Coral de Cante Alentejano, e três novidades: o recente Grupo de Teatro, criado em colaboração com a ESE de Setúbal, o Grupo de Cordas e Guitarras e a estreia de um novo agrupamento: Melodias de Sempre. Vai ser um prazer.

Mas o destaque vai para uma homenagem que não podíamos deixar em claro: a atribuição do título de professores Eméritos da Universidade Sénior, um, a título póstumo, ao Professor António Quaresma Rosa, que criou e difundiu de forma original o saber sobre a nossa cidade que denominou “Conhecer Setúbal”, de que aqui deixamos registada a nossa saudade, o outro, à Professora Etelvina Bigas, que ultrapassados as nove dezenas de anos, continua a ensinar inglês, com o brilhantismo e entusiasmo de uma jovem professora. Embora por motivos e circunstâncias diferentes, o Conselho de Administração da UNISETI atribui esta justíssima homenagem.

(Noutro contexto, não podíamos deixar de fazer uma referência aos nossos colegas Administradores Maria do Carmo Branco e Américo Pereira, que continuam a recuperar de problemas de saúde e que tanto gostariam de estar connosco. Uma especial saudação e desejos de boas melhoras.)

Serão hoje também distribuídos os diplomas UNISETI FIDELITAS que pretende agradecer a todos os alunos e professores que durante o tempo da pandemia se mantiveram fiéis à sua Universidade Sénior. Lembramos a finalizar o notável e profundo poema de Peter Handke que aqui citámos há um par de meses: “Quando nos esquecíamos da data corrente: isso sim eram tempos.

 Isso sim era tempo.

 Quando os sonhos eram um ir e vir do inferno ao céu: Isso sim, eram tempos.”

 

Até breve,

Apresentamos as nossas Calorosas Saudações Cordiais,

 

O Presidente do Conselho de Administração

Arlindo Mota

 


Passeio a Madrid, Segóvia e Ávila

 


Bem cedinho, pouco passava da cinco da manhã do dia vinte e nove de Outubro de dois mil e vinte e dois, partimos rumo à aventura por terras de Espanha. Trinta e nove companheiros que pela primeira vez depois da pandemia iriam gozar em conjunto um passeio além-fronteiras com a razoável duração de quatro dias. Entreabria-se a porta fechada há mais de dois anos para deixar passar uma réstia de esperança em melhores dias.

    Quase sem se dar por isso já estávamos por Santa Olalla, onde parámos para almoçar, seriam 13,30 horas locais. Serviço relâmpago no restaurante “Salamanquilha” e de novo na estrada.

Pelas dezasseis horas já descíamos a Rua da Princesa, em Madrid, para dar início a uma visita panorâmica com passagem pelos locais mais emblemáticos da cidade como a ponte de Segóvia, o Palácio Real e seus jardins, a Praça de Espanha, a estação de Atocha entre outros locais. Seguiu-se uma paragem de um par de horas para fazer um percurso a pé até à Praça Maior. Era Sábado, bom tempo, ruas apinhadas de gente, esplanadas cheias, a Praça Maior abarrotava. Regresso ao autocarro e todos para o hotel para descansar que a jornada foi longa, ainda que suavizada pela excelente qualidade do autocarro e pela competência inquestionável do condutor.

A jornada do segundo dia começou com a visita ao Vale dos Caídos e à imponente  basílica com os seus 262 metros de comprimento totalmente escavada na rocha, a que se tem acesso por uma monumental porta de bronze com mais de dez metros da altura.  No alto do monte onde a basílica foi escavada, uma cruz de 150 metros domina a paisagem.   Dentro da basílica nada de fotografias.

O almoço no restaurante Alaska em S. Lourenzo do Escurial, teve lugar ao meio-dia e trinta, mais uma vez cedo, para contrariar os espanhóis que almoçam tarde. Depois do almoço seguiu-se a visita ao complexo de edifícios do Escurial, mandado construir por Filipe I de Portugal, certamente com algum dinheiro lusitano; os espanhóis dizem que o mandante da obra foi Filipe II de Espanha. A visita começou pela biblioteca, muito rica em decoração e recheio, apesar de mais de metade das obras ter sido consumida por um incendio. Seguiu-se a sala dos relicários com milhares de relíquias, grandes e pequenas, para todos os efeitos. O rei, que era muito pio, sempre vestido de negro como mostram as pinturas, tinha o seu palácio residencial distribuído por várias salas na basílica. O quarto onde dormia tinha vistas de um lado para o altar-mor e do outro para os jardins. Do outro lado do altar, em posição simétrica eram os aposentos da rainha. Descemos ao mundo dos mortos: os panteões dos reis e dos infantes. No primeiro separação das tumbas: homens de um lado  e mulheres de outro, com raras excepções; no segundo só crianças. Tudo uma beleza tétrica. Mais salas, claustros, pinturas a óleo e a fresco, esculturas. Capelas são mais de quarenta. Tudo feito por bons artistas, que o rei não olhava a despesas.

Libertos da clausura fomos arejar até à estância de Inverno de Navacerrada, no parque natural da serra de Guadarrama. Era já fim do dia, o céu negro ameaçava chuva. Estavam nove graus e um ventinho agreste que convidava à retirada para o hotel em Segóvia.

A alvorada do terceiro dia foi a horas razoáveis. Já na rua deparamos com um miradouro de quatro colunas que deu o nome de “Cuatro Postes” ao hotel onde ficámos. Deste Miradouro tem-se uma vista soberba sobre a cidade de Ávila. Para aí nos dirigimos. Franqueada uma das nove portas da cidade visitamos a catedral, que se integra na própria muralha, o convento de Santa Teresa, passeamos do Mercado Grande ao Mercado Pequeno e, já fora das muralhas, a basílica de V. Vicente. Almoço e regresso para visita a Segóvia.

Em Segóvia fomos recebidos por uma chuva miudinha, que não impediu a progressão do grupo.  O monumental aqueduto desperta a admiração dos visitantes. Obra de romanos em pedra seca que se mantem firme desafiando o tempo. Subindo em direcção à Praça Maior deparamos com uma casa de bicos, com decoração exterior semelhante à da Casa dos Bicos de Lisboa. Visita exterior à Catedral. Seguimos para o Alcazar também para uma visita exterior, ou no interior para quem quis, rápida porque o tempo não era muito e também havia quem quisesse visitar o interior da catedral, estando já muito perto a hora do fecho para visitas.

E chegou o último dia. Pela manhã visita ao palácio real de La Granja de Santo Ildefonso, mandado construir por Filipe V inspirado no palácio de Versalhes e por isso também chamado de pequeno Versalhes. No interior a flor de Lis está em todo o lado, marcando bem a presença dos Bourbon. No exterior os jardins são um esplendor que as alterações do clima nos permitiram apreciar porque, segundo a guia que nos conduziu na visita, nesta altura do ano já tudo estaria gelado. Finda a visita voltámos a Segóvia para almoçar com o apetite estimulado pela espectativa de meter o dente no “Cochinillo Segoviano”, servido no restaurante “El Bernardino” especialista na matéria, segundo voz corrente. Como entrada foi servido um guisado de feijocas com chouriço. Estava tão saboroso que bem dispensava o cochinillo, mas o ritual tinha que se cumprir. E veio o dito que foi colocado numa mesa no centro da sala para ser trinchado, imagine-se, com um prato! Operação só possível perante a macieza do bacorinho mal acabado de desmamar, se é que o chegou a ser. Depois, para concluir o ritual, o prato foi atirado ao chão espalhando-se em cacos pela sala. Provado e aprovado eis o veredito: o nosso é melhor.

Acabou-se a festa, regresso a casa onde chegámos pelas dez da noite, do dia um de Novembro de 2022.

Madrid






Vale dos Caídos







S. Lorenzo del Escurial











El Escurial


Navacerrada



















Avila





                     (Quarto de Santa Teresa de Jesus)
















Segóvia
























La Granja de San Ildefonso























O almoço de encerramento 




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