19/08/2026

Visita de estudo: Arouca, Aveiro e Ílhavo

 



As actividades lectivas, do ano de 2025/2026, das disciplinas de Portugal no Mundo e Economia, no âmbito da Universidade de Verão, encerraram-se com uma visita de estudo aos locais mais emblemáticos ou interessantes de Aveiro, Arouca e Ílhavo.

A visita iniciou-se com uma situação inédita e única, assim se espera, na Uniseti: partida um tanto atrasada, por razões consideradas ponderosas. Aceites as desculpas humildemente apresentadas, iniciámos a viagem, durante a qual a professora Paula explicou que o acidente costeiro habitual e erradamente chamado de Ria de Aveiro, deve designar-se por Haff-delta de Aveiro, que significa falso delta de Aveiro. Continuou explicando que a formação das rias se deve ao processo de erosão dos rios, escavando vales pelos quais avança o mar. Em Aveiro deu-se a conjugação da sedimentação fluvial com a sedimentação marinha, dando origem ao referido Haff-delta. Terminou dizendo que rias na Costa Ocidental da Península Ibérica só na Galiza.

Recuperado o atraso, a meio da manhã estávamos em Aveiro, onde o incrível guia Paulinho nos aguardava.

Paulinho começou por explicar que a origem da palavra Aveiro estava no grande número de aves que em tempos por lá andavam, na versão popular claro está, que a mais científica e fundamentada é outra. Continuando e a este propósito, chamou a atenção para a escultura de uma águia, no cimo de um edifício, ave presente no brasão da cidade. Fez notar, com alguma insistência, a presença dos cinco elementos caracterizadores da Arte Nova, bem presente na Cidade, e referiu que Aveiro será a primeira cidade a ser inundada com a subida dos oceanos decorrente das alterações climáticas. Junto a um dos canais, em presença das embarcações típicas da região, os moliceiros e os mercantéis, explicou as diferenças entre eles: os primeiros, mais pequenos, proa levantada e decoração com figuras humanas e frases de segundo sentido mais ou menos erótico; os outros, os mercantéis, maiores, de proa menos elevada e decoração com motivos florais. Elogiou as enguias e as ostras da ria, cuja excelência se deve às algas que por ali existem. Aqui, a Professora Paula comentou baixinho, só para os mais próximos, para não vexar o Paulinho, que aquilo não é uma ria, mas um Haff-delta, como já tinha explicado. Imparável, o Paulinho, salientou o significado dos motivos decorativos da Calçada Portuguesa, que calcávamos a caminho do Bairro da Beira-mar com a sua Capela de S. Gonçalinho, de que não vimos o interior, mas ouvimos a história das festas em honra do Santo e das cavacas, aqueles bolos secos e um tanto duros, que no dia da festa são atirados do cimo da capela e são apanhados em baixo, pelos participantes, com guarda-chuvas virados ao contrário. Do bairro da Beira-mar, o bairro dos Cagaréus, seguimos para a prova dos ovos moles, cuja compra no início do passeio não era o mais aconselhável. Depois, o Paulinho levou-nos até à margem esquerda do canal principal, zona dos Ceboleiros, local de gente abastada pelo negócio das cebolas e do sal. As explicações sobre a Arte Nova e do significado dos motivos decorativos da calçada, continuaram e bem assim sobre a figura de José Estevão, político a quem se deve a passagem do caminho de ferro por Aveiro. Caminhando com destreza às arrecuas o guia Paulinho conduziu-nos ao restaurante para o almoço: em terra de peixe e mar, cozido à portuguesa, a atracção dos opostos.

Depois do almoço um passeio pelos canais, num mercantel, com um guia sem história.

Desembarcados, seguiu-se uma visita às salinas, com explicação bem pormenorizada do processo de produção do sal, por guia conhecedor, que foi explicando no local a circulação da água do mar entre os vários compartimentos, desde a sua entrada nas caldeiras até chegar aos cristalizadores, onde o sal se forma. Mostrou a formação da flor-de-sal e a sua diferença, à vista, do sal grosso. Durante o percurso, pelos caminhos da salina, pudemos ver ninhos de pernilongos e a aflição dos pais perante os intrusos que incomodavam as sua crias.

Vista a salina e adquiridos uns quilinhos de flor-de-sal, de novo no autocarro a caminho de Arouca.   

Depois de uns quilómetros de boa estrada, a paisagem mudou de plana para montanhosa, com floresta de eucaliptos densa e contínua, salpicada por manchas de mimosas, essa infestante de reduzido valor económico que está invadindo o País. Em Arouca, alojamento no Hotel S. Pedro.

O passeio do segundo dia foi animado pelo guia Sérgio, que começaria por dizer que estávamos num território que comporta o Geoparque de Arouca, o segundo geoparque nacional desde 2015, onde se encontram os vários Geossítios, cada um com os seus próprios tipos de interesses. Pela estrada o guia fez notar a presença de arvores autóctones como os carvalhos até aos 600 metros de altitude. Depois surgem os eucaliptos e os pinheiros até que as arvores vão desaparecendo porque o solo é rochoso só permitindo vegetação rasteira como a urze, a carqueja e o tojo. Surgem as formações de xisto com 550 milhões de anos e os granitos com 250 milhões. O ponto de transição entre estas duas formações rochosas é designado por contacto litológico. O aproveitamento destas rochas na construção das casas é evidente: granito nas paredes e xisto nos telhados. Dispersos, filões de quartzo que contém ouro, que não é rentável explorar.

Ziguezagueando por antiga estrada militar atingimos o miradouro donde se pode ver a Frecha de Mizarela, na Serra da Freita, um fio de água que se despenha em cascata de uma altura de mais de sessenta metros. Tiradas as fotos seguimos para a Casa das Pedras Parideiras, na aldeia da Castanheira. Pelo caminho, no rio Caima, as marmitas de gigante que nem todos conseguiram identificar. O guia foi informando que há outras curiosidades pouco faladas: as pedras cebolas e as pedras boroas. Já na Casa das Pedras Parideiras, assistimos a um vídeo sobre este fenómeno. À saída pudemos ver uma formação granítica com os nódulos de biotite bem expostos, como que saindo da rocha. Na loja, um nódulo aberto ao meio mostra o seu núcleo de quartzo e feldspato.

Próxima paragem: Radar Meteorológico de Arouca, situado no Pico do Gralheiro, na Serra da Freita, a cerca de mil e cem metros de altitude.

No décimo piso, a cinquenta metros do solo, vencidos por 180 degraus ou, mais comodamente, pelo elevador, uma técnica do IPMA fez uma descrição bem pormenorizada do funcionamento do radar, da sua utilização e dos equipamentos meteorológicos, actuais e antigos. Assim, referiu o apoio dado à aviação civil com a informação da situação meteorológica que pode obrigar ao desvio de rotas; a monotorização das poeiras que vem do Norte de África e outras partículas na atmosfera como o caso do incendio na fábrica de enxofre da Sapec, em Setúbal. Depois de fazer referência ao equipamento moderno, em uso, e que permite ao IPMA receber a respectiva informação em tempo real, mostrou outro equipamento que, embora utilizável está fora de serviço como o termógrafo, barógrafo, pluviómetro, sismógrafo. Também aqui se faz a monitorização climática a partir dos dados recolhidos nas diversas estações meteorológicas. Frisou que neste radar não se faz  previsão meteorológica, com excepção da que se pode fazer a muito curto prazo para efeitos aeronáuticos. Situações extremas detectadas são comunicadas à Protecção Civil.

A vista do alto da torre é deslumbrante. Segundo foi dito, em dias claros pode ver-se desde a Serra da Boa-viagem, na Figueira da Foz até Viana do Castelo. Não sendo o dia muito claro, ainda assim, viam-se os contornos das serras do Caramulo, Bussaco, Lousã e Estrela. Avista-se Aveiro e a “Ria”, Vale de Cambra, S. João da Madeira e ao longe o oceano.

Renques de árvores descem pelas encostas assinalando linhas de água e, junto delas, aldeias ou pequenos povoados mais ou menos abandonadas, mas em processo de reocupação, segundo o guia nos informou mais tarde. Regresso ao hotel para almoço.

De tarde visita ao Museu das Trilobites Gigantes, na Freguesia de Canelas. Pelo caminho o guia foi explicando a formação daqueles fósseis e a sua descoberta durante os trabalhos de exploração de lousa uma pedreira propriedade de Manuel Valério, homem curioso e com interesse por história e arqueologia que reparou que nas placas de lousa apareciam uns fósseis, que desconhecia, mais tarde identificados por paleontólogo espanhol como trilobites marinhas gigantes. Então, quando apareciam estes fósseis, Manuel Valério mandava parar os trabalhos para recolha de tais exemplares que catalogava, criando um espólio que daria origem, mais tarde e com a ajuda de especialistas, ao museu. Mas as trilobites de Canelas só passaram a ter verdadeiramente divulgação internacional com a criação do Geoparque de Arouca.

A visita a este museu começou com a exibição de um filme explicativo da evolução da vida na terra, onde se incluem as trilobites, e da acção de Manuel Valério que conduziu ao actual museu.

Depois do filme a visita propriamente dita ao espaço de exposição, com as explicações, possíveis, pela viúva do fundador e as fotos para os álbuns dos visitantes.

Vistos os fósseis, regresso a Arouca para visitar o Museu de Arte Sacra do Mosteiro de Arouca, que acolheu a infanta Mafalda, filha de D. Sancho I, após a anulação do seu casamento com Henrique I de Castela. A Infanta impôs, neste mosteiro, as regras da Ordem de Cister Feminino.

A visita ao mosteiro, embora prejudicada pelas obras em curso, permitiu apreciar um interessante acervo de pintura e esculturas religiosas. De destacar a monumental e granítica cozinha que pode atestar a riqueza deste mosteiro.

Do mosteiro seguimos para uma prova de doces regionais e os conventuais numa pastelaria local onde, como não podia deixar de ser, pudemos verificar que há um bolo chamado “Pedras parideiras”.  

No terceiro e último dia da visita, a alvorada foi um pouco mais cedo, para chegar a Ílhavo antes das dez, como aconteceu, para visitar o Museu da Vista Alegre.

Começou esta visita pela capela, com os seus azulejos setecentistas, o túmulo do bispo de Miranda que a mandou construir e as colunas torsas do altar, de brecha da Arrábida. Dando para a nave uma janela dá acesso directo ao quarto do fundador da Vista Alegre, José Pinto Basto, cuja habitação está adossada à capela.

Passando ao espaço museológico propriamente dito, a guia começou por apresentar um trabalho de 24 peças, únicas, pintadas à mão e numeradas, comemorativas dos 200 anos da Vista Alegre. O preço para as que ainda restam anda por € 75.000,00. Com cerca de 700 trabalhadores na fábrica a empresa vende para todo mundo. Depois fomos convidados a entrar no forno para vê-lo por dentro. Seguidamente, a guia explicou o processo antigo de cozedura e vidragem da porcelana, a temperatura do forno e o combustível utilizado, o processo de carregamento das peças no interior do forno, a selagem das entradas que seriam partidas no fim da cozedura assim que fosse seguro fazê-lo, processo que levaria 2 semanas. Na nova fábrica o processo leva 8 horas, disse. Após a produção, as peças são decoradas, ou à mão em atelier que não pode ser fotografado, ou por processo mecânico. Perante duas fotos separadas por muitos anos a guia referiu a atitude pioneira de José Pinto Basto ao acabar com a utilização de crianças nos trabalhos fabris (na altura não se falava em trabalho infantil) e ao construir um bairro para os operários, com escola, posto médico, espaço desportivo e até teatro.

Depois foi recrear o olhar pelas peças em exposição, a que não falta um candeeiro em porcelana translucida desenhado por Siza Vieira. A visita terminou no atelier de pintura onde, curiosamente, naquele momento só havia mulheres na execução deste trabalho minucioso e artístico. Como o tempo se esgotara a visita à loja outlet ficou para outra altura e partimos para a visita ao Museu Marítimo de Ílhavo, popularmente conhecido por Museu do Bacalhau.

Neste museu de Ílhavo pode ver-se uma réplica de um bacalhoeiro à vela com os respectivos doris, pequenas embarcações utilizadas para a pesca à linha, os artigos e apetrechos da pesca, réplicas da cozinha e outros espaços do navio. No andar superior uma valiosa colecção de conchas, que valia a pena observar, demoradamente, uma a uma se o tempo permitisse. No primeiro piso, num grande aquário nadam lindos bacalhaus. 

Finda a visita regresso a Aveiro para almoçar no restaurante “Os Ossinhos”, bacalhau pois então, de cebolada.

A seguir ao almoço visita ao navio Santo André, bacalhoeiro de arrasto lateral, construído nos anos quarenta. Foi um navio moderno para a época, já com os processos de tratamento do pescado mecanizados.

Seguiu-se a visita ao Farol de Ílhavo ou de Aveiro como erradamente também lhe chamam. O Faroleiro de serviço fez uma breve história do Farol desde que foi inaugurado em 1893 com iluminação a petróleo, passando a eléctrica em 1950. Hoje tem iluminação por lâmpada de Halogéneo e lente Fresnel, com um alcance de 23 milhas, cerca de 40 Km. Do alto dos seus 62 metros, quem lá chegue após subir 288 degraus, tem um horizonte a perder de vista, com uma perspetiva da “ria” completamente diferente da que se vê ao nível do mar.

Depois do farol início do regresso a casa com passagem pela Costa Nova com um olhar para os característicos palheiros listados de alto a baixo de branco com outra cor. Uns são casas de férias, outros transformados em lojas, cafés, gelatarias.

Chegada a Setúbal ao fim do dia transportando na bagagem mais umas coisas para guardar na arca das recordações.



O Paulinho em acção






A Capela de S. Joaninho



A prova dos ovos moles




Obra de Siza Vieira

Passeando pela "Ria"



E a ponte do amor


O sal grosso





Frechas de Mizarela




E as pedras parideiras





Radar meteorológico da Serra da Freita






Em busca das trilobites







Museu de Arte Sacra do Mosteiro de Arouca 



Doces regionais e conventuais também se provaram


E o museu da Vista Alegre, como se pode ver








E este candeeiro é de Siza Vieira





O Museu do Mar




O senhor bacalhau








O farol de Ilhavo (ou de Aveiro)










E a foto de grupo junto ao Radar Meteorológico