As actividades
lectivas, do ano de 2025/2026, das disciplinas de Portugal no Mundo e Economia,
no âmbito da Universidade de Verão, encerraram-se com uma visita de estudo aos
locais mais emblemáticos ou interessantes de Aveiro, Arouca e Ílhavo.
A visita
iniciou-se com uma situação inédita e única, assim se espera, na Uniseti:
partida um tanto atrasada, por razões consideradas ponderosas. Aceites as
desculpas humildemente apresentadas, iniciámos a viagem, durante a qual a
professora Paula explicou que o acidente costeiro habitual e erradamente
chamado de Ria de Aveiro, deve designar-se por Haff-delta de Aveiro, que
significa falso delta de Aveiro. Continuou explicando que a formação das rias
se deve ao processo de erosão dos rios, escavando vales pelos quais avança o
mar. Em Aveiro deu-se a conjugação da sedimentação fluvial com a sedimentação
marinha, dando origem ao referido Haff-delta. Terminou dizendo que rias na
Costa Ocidental da Península Ibérica só na Galiza.
Recuperado o
atraso, a meio da manhã estávamos em Aveiro, onde o incrível guia Paulinho nos aguardava.
Paulinho
começou por explicar que a origem da palavra Aveiro estava no grande número de
aves que em tempos por lá andavam, na versão popular claro está, que a mais
científica e fundamentada é outra. Continuando e a este propósito, chamou a
atenção para a escultura de uma águia, no cimo de um edifício, ave presente no brasão
da cidade. Fez notar, com alguma insistência, a presença dos cinco elementos
caracterizadores da Arte Nova, bem presente na Cidade, e referiu que Aveiro
será a primeira cidade a ser inundada com a subida dos oceanos decorrente das
alterações climáticas. Junto a um dos canais, em presença das embarcações
típicas da região, os moliceiros e os mercantéis, explicou as diferenças entre
eles: os primeiros, mais pequenos, proa levantada e decoração com figuras
humanas e frases de segundo sentido mais ou menos erótico; os outros, os
mercantéis, maiores, de proa menos elevada e decoração com motivos florais. Elogiou
as enguias e as ostras da ria, cuja excelência se deve às algas que por ali
existem. Aqui, a Professora Paula comentou baixinho, só para os mais próximos,
para não vexar o Paulinho, que aquilo não é uma ria, mas um Haff-delta, como já
tinha explicado. Imparável, o Paulinho, salientou o significado dos motivos
decorativos da Calçada Portuguesa, que calcávamos a caminho do Bairro da
Beira-mar com a sua Capela de S. Gonçalinho, de que não vimos o interior, mas
ouvimos a história das festas em honra do Santo e das cavacas, aqueles bolos
secos e um tanto duros, que no dia da festa são atirados do cimo da capela e
são apanhados em baixo, pelos participantes, com guarda-chuvas virados ao
contrário. Do bairro da Beira-mar, o bairro dos Cagaréus, seguimos para a prova
dos ovos moles, cuja compra no início do passeio não era o mais aconselhável.
Depois, o Paulinho levou-nos até à margem esquerda do canal principal, zona dos
Ceboleiros, local de gente abastada pelo negócio das cebolas e do sal. As
explicações sobre a Arte Nova e do significado dos motivos decorativos da
calçada, continuaram e bem assim sobre a figura de José Estevão, político a
quem se deve a passagem do caminho de ferro por Aveiro. Caminhando com destreza
às arrecuas o guia Paulinho conduziu-nos ao restaurante para o almoço: em terra
de peixe e mar, cozido à portuguesa, a atracção dos opostos.
Depois do
almoço um passeio pelos canais, num mercantel, com um guia sem história.
Desembarcados,
seguiu-se uma visita às salinas, com explicação bem pormenorizada do processo
de produção do sal, por guia conhecedor, que foi explicando no local a
circulação da água do mar entre os vários compartimentos, desde a sua entrada nas
caldeiras até chegar aos cristalizadores, onde o sal se forma. Mostrou a
formação da flor-de-sal e a sua diferença, à vista, do sal grosso. Durante o
percurso, pelos caminhos da salina, pudemos ver ninhos de pernilongos e a
aflição dos pais perante os intrusos que incomodavam as sua crias.
Vista a salina
e adquiridos uns quilinhos de flor-de-sal, de novo no autocarro a caminho de
Arouca.
Depois de uns
quilómetros de boa estrada, a paisagem mudou de plana para montanhosa, com
floresta de eucaliptos densa e contínua, salpicada por manchas de mimosas, essa
infestante de reduzido valor económico que está invadindo o País. Em Arouca,
alojamento no Hotel S. Pedro.
O passeio do
segundo dia foi animado pelo guia Sérgio, que começaria por dizer que estávamos
num território que comporta o Geoparque de Arouca, o segundo geoparque nacional
desde 2015, onde se encontram os vários Geossítios, cada um com os seus próprios
tipos de interesses. Pela estrada o guia fez notar a presença de arvores autóctones
como os carvalhos até aos 600 metros de altitude. Depois surgem os eucaliptos e
os pinheiros até que as arvores vão desaparecendo porque o solo é rochoso só
permitindo vegetação rasteira como a urze, a carqueja e o tojo. Surgem as
formações de xisto com 550 milhões de anos e os granitos com 250 milhões. O
ponto de transição entre estas duas formações rochosas é
designado por contacto litológico. O aproveitamento destas rochas na
construção das casas é evidente: granito nas paredes e xisto nos telhados.
Dispersos, filões de quartzo que contém ouro, que não é rentável explorar.
Ziguezagueando
por antiga estrada militar atingimos o miradouro donde se pode ver a Frecha de
Mizarela, na Serra da Freita, um fio de água que se despenha em cascata de uma
altura de mais de sessenta metros. Tiradas as fotos seguimos para a Casa das
Pedras Parideiras, na aldeia da Castanheira. Pelo caminho, no rio Caima, as
marmitas de gigante que nem todos conseguiram identificar. O guia foi
informando que há outras curiosidades pouco faladas: as pedras cebolas e as
pedras boroas. Já na Casa das Pedras Parideiras, assistimos a um vídeo sobre este
fenómeno. À saída pudemos ver uma formação granítica com os nódulos de biotite
bem expostos, como que saindo da rocha. Na loja, um nódulo aberto ao meio
mostra o seu núcleo de quartzo e feldspato.
Próxima
paragem: Radar Meteorológico de Arouca, situado no Pico do Gralheiro, na Serra
da Freita, a cerca de mil e cem metros de altitude.
No décimo piso,
a cinquenta metros do solo, vencidos por 180 degraus ou, mais comodamente, pelo
elevador, uma técnica do IPMA fez uma descrição bem pormenorizada do
funcionamento do radar, da sua utilização e dos equipamentos meteorológicos,
actuais e antigos. Assim, referiu o apoio dado à aviação civil com a informação
da situação meteorológica que pode obrigar ao desvio de rotas; a monotorização
das poeiras que vem do Norte de África e outras partículas na atmosfera como o
caso do incendio na fábrica de enxofre da Sapec, em Setúbal. Depois de fazer
referência ao equipamento moderno, em uso, e que permite ao IPMA receber a
respectiva informação em tempo real, mostrou outro equipamento que, embora
utilizável está fora de serviço como o termógrafo, barógrafo, pluviómetro, sismógrafo.
Também aqui se faz a monitorização climática a partir dos dados recolhidos nas
diversas estações meteorológicas. Frisou que neste radar não se faz previsão meteorológica, com excepção da que se
pode fazer a muito curto prazo para efeitos aeronáuticos. Situações extremas
detectadas são comunicadas à Protecção Civil.
A vista do alto
da torre é deslumbrante. Segundo foi dito, em dias claros pode ver-se desde a
Serra da Boa-viagem, na Figueira da Foz até Viana do Castelo. Não sendo o dia
muito claro, ainda assim, viam-se os contornos das serras do Caramulo, Bussaco,
Lousã e Estrela. Avista-se Aveiro e a “Ria”, Vale de Cambra, S. João da Madeira
e ao longe o oceano.
Renques de
árvores descem pelas encostas assinalando linhas de água e, junto delas,
aldeias ou pequenos povoados mais ou menos abandonadas, mas em processo de
reocupação, segundo o guia nos informou mais tarde. Regresso ao hotel para
almoço.
De tarde visita
ao Museu das Trilobites Gigantes, na Freguesia de Canelas. Pelo caminho o guia
foi explicando a formação daqueles fósseis e a sua descoberta durante os
trabalhos de exploração de lousa uma pedreira propriedade de Manuel Valério,
homem curioso e com interesse por história e arqueologia que reparou que nas
placas de lousa apareciam uns fósseis, que desconhecia, mais tarde
identificados por paleontólogo espanhol como trilobites marinhas gigantes. Então,
quando apareciam estes fósseis, Manuel Valério mandava parar os trabalhos para
recolha de tais exemplares que catalogava, criando um espólio que daria origem,
mais tarde e com a ajuda de especialistas, ao museu. Mas as trilobites de
Canelas só passaram a ter verdadeiramente divulgação internacional com a
criação do Geoparque de Arouca.
A visita a este
museu começou com a exibição de um filme explicativo da evolução da vida na
terra, onde se incluem as trilobites, e da acção de Manuel Valério que conduziu
ao actual museu.
Depois do filme
a visita propriamente dita ao espaço de exposição, com as explicações,
possíveis, pela viúva do fundador e as fotos para os álbuns dos visitantes.
Vistos os
fósseis, regresso a Arouca para visitar o Museu de Arte Sacra do Mosteiro de
Arouca, que acolheu a infanta Mafalda, filha de D. Sancho I, após a anulação do
seu casamento com Henrique I de Castela. A Infanta impôs, neste mosteiro, as
regras da Ordem de Cister Feminino.
A visita ao
mosteiro, embora prejudicada pelas obras em curso, permitiu apreciar um
interessante acervo de pintura e esculturas religiosas. De destacar a
monumental e granítica cozinha que pode atestar a riqueza deste mosteiro.
Do mosteiro
seguimos para uma prova de doces regionais e os conventuais numa pastelaria
local onde, como não podia deixar de ser, pudemos verificar que há um bolo
chamado “Pedras parideiras”.
No terceiro e
último dia da visita, a alvorada foi um pouco mais cedo, para chegar a Ílhavo
antes das dez, como aconteceu, para visitar o Museu da Vista Alegre.
Começou esta visita
pela capela, com os seus azulejos setecentistas, o túmulo do bispo de Miranda
que a mandou construir e as colunas torsas do altar, de brecha da Arrábida. Dando
para a nave uma janela dá acesso directo ao quarto do fundador da Vista Alegre,
José Pinto Basto, cuja habitação está adossada à capela.
Passando ao
espaço museológico propriamente dito, a guia começou por apresentar um trabalho
de 24 peças, únicas, pintadas à mão e numeradas, comemorativas dos 200 anos da
Vista Alegre. O preço para as que ainda restam anda por € 75.000,00. Com cerca
de 700 trabalhadores na fábrica a empresa vende para todo mundo. Depois fomos
convidados a entrar no forno para vê-lo por dentro. Seguidamente, a guia
explicou o processo antigo de cozedura e vidragem da porcelana, a temperatura
do forno e o combustível utilizado, o processo de carregamento das peças no
interior do forno, a selagem das entradas que seriam partidas no fim da
cozedura assim que fosse seguro fazê-lo, processo que levaria 2 semanas. Na
nova fábrica o processo leva 8 horas, disse. Após a produção, as peças são
decoradas, ou à mão em atelier que não pode ser fotografado, ou por processo
mecânico. Perante duas fotos separadas por muitos anos a guia referiu a atitude
pioneira de José Pinto Basto ao acabar com a utilização de crianças nos
trabalhos fabris (na altura não se falava em trabalho infantil) e ao construir
um bairro para os operários, com escola, posto médico, espaço desportivo e até
teatro.
Depois foi
recrear o olhar pelas peças em exposição, a que não falta um candeeiro em
porcelana translucida desenhado por Siza Vieira. A visita terminou no atelier
de pintura onde, curiosamente, naquele momento só havia mulheres na execução
deste trabalho minucioso e artístico. Como o tempo se esgotara a visita à loja outlet
ficou para outra altura e partimos para a visita ao Museu Marítimo de Ílhavo,
popularmente conhecido por Museu do Bacalhau.
Neste museu de
Ílhavo pode ver-se uma réplica de um bacalhoeiro à vela com os respectivos
doris, pequenas embarcações utilizadas para a pesca à linha, os artigos e
apetrechos da pesca, réplicas da cozinha e outros espaços do navio. No andar
superior uma valiosa colecção de conchas, que valia a pena observar,
demoradamente, uma a uma se o tempo permitisse. No primeiro piso, num grande
aquário nadam lindos bacalhaus.
Finda a visita
regresso a Aveiro para almoçar no restaurante “Os Ossinhos”, bacalhau pois
então, de cebolada.
A seguir ao
almoço visita ao navio Santo André, bacalhoeiro de arrasto lateral, construído
nos anos quarenta. Foi um navio moderno para a época, já com os processos de
tratamento do pescado mecanizados.
Seguiu-se a
visita ao Farol de Ílhavo ou de Aveiro como erradamente também lhe chamam. O
Faroleiro de serviço fez uma breve história do Farol desde que foi inaugurado
em 1893 com iluminação a petróleo, passando a eléctrica em 1950. Hoje tem
iluminação por lâmpada de Halogéneo e lente Fresnel, com um alcance de 23
milhas, cerca de 40 Km. Do alto dos seus 62 metros, quem lá chegue após subir
288 degraus, tem um horizonte a perder de vista, com uma perspetiva da “ria”
completamente diferente da que se vê ao nível do mar.
Depois do farol
início do regresso a casa com passagem pela Costa Nova com um olhar para os característicos
palheiros listados de alto a baixo de branco com outra cor. Uns são casas de
férias, outros transformados em lojas, cafés, gelatarias.
Chegada a
Setúbal ao fim do dia transportando na bagagem mais umas coisas para guardar na
arca das recordações.


















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